Categoria: Análises

  • Análise: Kraino Origins (Switch) — uma aventura de plataforma das antigas que diverte com simplicidade

    Em uma terra distante, o maligno Dr. Batcula decidiu formar um exército sombrio a partir de magia e ciência, dando vida às suas próprias criaturas e revivendo monstrengos do passado. No entanto, o seu plano começou a dar errado quando ele ressuscitou Kraino, um esqueleto que parecia ser maligno, mas que bravamente passou a combater as tropas do vilão.

    Assim, Kraino Origins narra a saga desse protagonista que, buscando salvar o universo de seus perigos assombrosos, deve enfrentar cenários bidimensionais com desafios de plataforma e embates intensos. Embora não seja uma aventura essencialmente original e ampla, é preciso reconhecer que este platformer retrô consegue nos divertir por meio de sua agradável simplicidade.

    Tirando o chapéu para KrainoEm termos de narrativa, Kraino Origins é bastante limitado: para além de uma breve cena cinematográfica introdutória, o jogo não apresenta grandes acontecimentos ou desenvolve personagens, apenas nos mostra alguns diálogos conforme avançamos pela campanha. Por isso, sem se aprofundar em sua trama, fica claro que a aventura concentra-se em oferecer uma jogabilidade intensa.

    Com movimentação lateral, saltos e a presença de habilidades especiais que nos permitem atacar à distância, atirando bolas de fogo ou arremessando machados, por exemplo, Kraino possui um repertório de movimentos bastante tradicional, mas que é divertido de usar. Isso ocorre principalmente pela precisão dos comandos e também pela intensidade dos desafios, que exigem pulos precisos, desvios ligeiros e investidas de ataque diversificadas.
    Quando o assunto é progressão, a campanha é essencialmente linear, compreendendo oito estágios, cada qual com um chefão em seu final, além de outras pequenas fases que são chamadas de Desafios. Nestas, devemos superar adversidades para conquistar as Caveiras Mágicas, que possibilitam melhorias na loja da aventura.

    Esses motivos evidenciam que Kraino Origins tem uma essência bastante simples em termos de progressão e jogabilidade, o que não é necessariamente um problema. Muito pelo contrário, essa é uma das maiores qualidades da aventura: entreter através de desafios intuitivos e clássicos, que também são agraciados por uma estilosa estética retrô.

    O belo e pixelado Mundo SuperiorAlém de interessantes propostas de level design, temos aqui um título que incorpora muito bem a sua temática assustadora: enquanto os cenários estampam ilustrações encantadoras, exibindo cemitérios, cavernas e florestas, os personagens são criativos e vão desde lobisomens e arqueiros esqueletos até cogumelos venenosos e fantasmas. Nesse sentido, a pixel art utilizada faz um bom serviço, trazendo o aspecto old school desejado, mas sem deixar de caprichar nas ambiências do Mundo Superior, como é chamado o universo da saga.

    Outra proeza de Kraino Origins está no fato de que os estágios contam com itens coletáveis. Em cada fase, podemos coletar até três Fragmentos de Alma, o que é interessante pois, além de incentivar as explorações, também aumenta o fator replay da aventura, juntando-se à conjuntura de que as fases de desafio são opcionais; ou seja, encaramos esses estágios apenas se desejamos coletar novos recursos.
    Diante disso, a minha jornada foi divertida e encantadora, tanto por conta das qualidades estéticas, quanto pela fundamentação dos desafios. Uma pena, no entanto, que alguns problemas se manifestem em meio aos cenários arrasados pelas tropas do Dr. Batcula.

    Adversidades que não estão nos estágiosNos primeiros instantes de jogatina, é notável que as físicas de movimentação de Kraino são um tanto singulares. Apesar dos comandos serem precisos, os saltos e a corrida do protagonista se mostram rígidos e lentos, causando uma certa estranheza que se intensifica quando os desafios exigem precisão. Por conseguinte, torna-se necessário um tempo de habituação aos recursos do jogo.

    Enquanto isso, outros dois potenciais problemas chamaram a minha atenção, mas que não estão necessariamente no gameplay em si. Primeiro, é preciso apontar que Kraino Origins é uma aventura breve: com cerca de duas horas e meia, pode-se completar os oito estágios da campanha, o que é frustrante.
    Em seguida, temos a adversidade de que, após o fim da jornada, nota-se claramente que o jogo não traz, essencialmente, nada de novo em suas premissas. De fato, em muitos momentos há até uma certa falta de originalidade nas propostas do jogo, que não agrega e nem revoluciona nada em seu gênero, baseando-se apenas na premissa de ser um título retrô.

    Assim, a verdade é que Kraino Origins é uma aventura recomendada para aqueles que procuram uma escolha segura de aventura de plataforma com raízes clássicas. Nesse sentido, por executar bem as suas premissas, o jogo pode encantar com os seus desafios simples e efetivos, mas não espere por nada além disso.

    Vestido para matar (o mal, claro)Em suma, Kraino Origins é um novo platformer com premissas retrô que se junta à biblioteca do Switch. Enquanto a sua pixel art proporciona cenários bonitos, os seus desafios garantem uma jogatina muito intensa, fazendo com que a aventura, mesmo que curta, tenha um charme tão elegante quanto Kraino, que veste um estiloso terno e um belo chapéu roxo.

    Prós

    • As fases contam com desafios de plataforma clássicos;
    • Batalhas contra chefões e uso de habilidades divertidas;
    • A estética da aventura é agraciada por uma bela pixel art e personagens curiosos;
    • Os desafios extras e demais coletáveis aumentam o fator replay;
    • Para os fãs de platformers, há uma diversão simples, efetiva e certeira.

    Contras

    • No início, a movimentação rígida de Kraino pode causar estranheza;
    • A campanha principal é curta, além de não desenvolver a trama da obra;
    • Não traz nada de novo, deixando a desejar em termos de originalidade.

    Kraino Origins — Switch/iOS/PC — Nota: 7.5Versão utilizada para análise: Switch

    Revisão: Diogo MendesAnálise produzida com cópia digital cedida pela Elden Pixels

  • Análise: Melon Journey: Bittersweet Memories (Switch) aborda temas sérios com leveza e bom humor

    Desenvolvido pela Froach Club e publicado pela XSEED Games, Melon Journey: Bittersweet Memories segue na contramão da tendência atual da indústria de games, na qual os jogos precisam ter 200 horas de duração e centenas de coisas para fazer, e limita sua jogabilidade a andar e conversar com NPCs. De maneira assertiva, o título conta sua história sem se estender mais do que o necessário para isso.

    Melões são proibidos!

    Em Bittersweet Memories, assumimos o papel de Honeydew, uma empregada de marketing em uma fábrica de produtos de melão. Em um determinado dia, seu amigo, Cantaloupe, desaparece e deixa uma carta pedindo para ela encontrá-lo na cidade de Hog. Ocorre que, nesse local, melões e qualquer produto derivado dessa fruta são proibidos por lei.
    Chegando à cidade, a protagonista descobre que Cantaloupe possuía sementes de melões dentro de uma maleta misteriosa. Nesse contexto, cabe a Honeydew descobrir onde está o seu amigo e qual a relação dele com uma suposta produção ilegal de melões.

    Conforme dito anteriormente, a gameplay de Melon Journey consiste em andar e interagir com os NPCs. Explorando a cidade e conversando com os habitantes, o jogador não só descobrirá segredos sombrios que rodeiam a região, mas também vai conhecer as histórias e dramas de cada residente.

    Uma cidade povoada por animais amáveisAlém de muitos personagens diferentes, o mundo apresentado em Melon Journey é composto por vários espaços distintos, incluindo áreas urbanas (umas mais ricas e outras mais precárias), florestas, esgotos, um cemitério e um presídio. Para andar mais rapidamente por essas zonas, contamos com um par de patins que são adquiridos em certo momento da campanha.
    Os moradores de Hog são todos animais, como cobras, ratos, gatos e cachorros. Embora haja dezenas de sujeitos, é impressionante ver que os desenvolvedores conseguiram dar carisma e personalidade a todos, com cada um deles possuindo linhas de diálogos que tornam a trama mais envolvente.

    Apesar da história assumir um tom cômico e se apresentar de uma forma leve, ela também aborda alguns temas mais pesados e sérios, abrangendo corrupção, abandono, prisão e vícios. Nesse sentido, Melon Journey consegue extrair do jogador gargalhadas e reflexões ao mesmo tempo.

    Ótimas tarefas opcionais e alguns probleminhasAlém da campanha principal, Bittersweet Memories possui algumas quests opcionais que se resumem a ajudar alguns dos animaizinhos. Além de ser muito prazeroso auxiliar essas criaturinhas fofas, concluir as missões também resulta em uma surpresa no final da jornada.
    Infelizmente, essas subquests não se apresentam de maneira eficaz, pois a única identificação que temos é um ícone com o rosto do personagem que ajudamos (visível na parte superior do menu geral). Somado a isso, essa imagem aparece somente depois que concluímos a missão correspondente, fazendo com que, na maioria das vezes, eu só descobrisse que estava realizando uma dessas tarefas após terminá-la.

    Ademais, por se tratar de um jogo que se sustenta unicamente na história, a ausência de legendas em português acaba ganhando um peso maior se comparada com outros casos, pois pode acabar afastando muitas pessoas que não possuam uma compreensão minimamente razoável do inglês.

    Um título que esbanja beleza em todos os aspectosGraficamente, Bittersweet Memories possui um visual em pixel art muito charmoso e detalhado, utilizando apenas tons verdes em sua coloração. Os gráficos lembram bastante os tempos de Game Boy, provocando uma certa nostalgia em quem teve contato com o portátil.
    Somado aos belos visuais, está uma trilha sonora igualmente agradável, composta por várias melodias dançantes, calmas ou agitadas, todas inseridas em contextos que fazem bom uso dos seus tons. Além disso, os animais também emitem sons que tornam seus diálogos mais divertidos, como miados, latidos e risadas vilanescas.

    Concluir a campanha leva cerca de três horas, podendo aumentar para cinco ou seis se o jogador realizar todas as tarefas opcionais. Esse tempo de duração se encaixa perfeitamente com a proposta do jogo, não deixando nenhuma lacuna no enredo e nem enrolando com informações desnecessárias. Desta forma, todos os locais e personagens possuem alguma relevância para a trama, fazendo com que a exploração e a interação sejam bastante naturais.

    Mais uma incrível adição de menor orçamento ao portátil da NintendoCom uma jogabilidade simples e um enredo bem-humorado, mas que também aborda temas sérios, Melon Journey: Bittersweet Memories é uma ótima adição à biblioteca do Switch, entregando ao jogador momentos de risos e de meditação em uma mesma proporção. Lamentavelmente, a falta de tradução para o português pode acabar impedindo que algumas pessoas tenham acesso a essa excelente produção.

    Prós:

    • Enredo interessante que aborda temas sérios de uma forma leve e bem-humorada;
    • Personagens extremamente carismáticos que somam muito à trama;
    • Visual em pixel art charmoso e bem detalhado;
    • Trilha sonora agradável e assertiva, composta por diversas melodias diferentes usadas em momentos oportunos;
    • As missões opcionais enriquecem o roteiro, dão mais vida aos personagens e recompensam o jogador com uma surpresa no final.

    Contras:

    • A ausência de legendas em português pode afastar algumas pessoas, pois o jogo se sustenta unicamente na história;
    • As missões secundárias poderiam ter uma apresentação melhor, pois não é intuitivo saber se estamos fazendo uma ou não.

    Melon Journey: Bittersweet Memories — PC/PS4/PS5/XBO/XSX/Switch — Nota: 9.0Versão utilizada para análise: Switch

    Revisão: Davi SousaAnálise produzida com cópia digital cedida pela XSEED Games

  • Análise – Curse of the Sea Rats

    Curse of the Sea Rats, desenvolvido pelo Petoons Studio e publicado pela PQube, traz para o Nintendo Switch um jogo de ação, exploração e combate com uma proposta diferente. Com multiplayer e não linear tenta inovar esse estilo amado por uns e considerado saturado por outros. Mas deu certo? Bem, vamos entender.

    Quatro prisioneiros e um amuleto

    Em meio a uma tempestade, um navio de prisioneiros é invadido por Flora Burn, uma terrível bruxa em busca de poder. Ela transforma toda a tripulação em ratos e rapta o filho do almirante responsável pelo navio. Preso na costa da Irlanda e sem muita escolha, o almirante manda os prisioneiros em busca de seu filho (e de quebrar a maldição), prometendo a eles liberdade caso tenham sucesso nessa missão.

    Com uma bela animação de introdução e mais algumas linhas de diálogo, já começamos nossa jornada em Curse of the Sea Rats escolhendo com quem vamos jogar. As opções são:

    David Douglas: perito em espada e pistola, personagem balanceado em status. Ideal para iniciantes.

    Buffalo Calf: expert em facas e adagas, ágil, com alguns ataques à distância, porém, um pouco mais frágil em vida. Ela possui um kit de recursos para quem gosta de jogar com mais segurança e acesso à esquiva para aqueles que não se abalam no meio do combate.

    Bussa: perito em corpo a corpo, possui bastante vida, causa muito dano, porém, é um pouco lento em relação aos outros. Sua defesa e dano são ótimos para quem sabe o momento de atacar e o momento de recuar. Sua falta de mobilidade é compensada ao longo do jogo.

    Akane Yamakawa: perita com a naginata, permitindo atacar os inimigos a uma certa distância. Causa bons danos, mas sua defesa é baixa. Julgo ser a personagem mais técnica, com movimentação um pouco mais avançada; tão ágil quanto Buffalo, mas com um alcance no chão um pouco maior e sem depender de projéteis.

    Cada um tem seus pontos fortes e fracos, uma nacionalidade diferente e diálogos únicos. Caso o jogador não se adapte bem a um personagem, é possível trocá-los nos pontos de salvamento sem afetar a história. Isso confere liberdade à gameplay, pois podemos explorar o mapa sem depender de linearidade ou backtrack, como muitos jogos do gênero.

    Lutando pela liberdade

    Curse of the Sea Rat tem um sistema de combate bem interessante para os protagonistas. Além da arma principal, temos um sistema de magia disponível graças ao poder do amuleto ancião e uma árvore de habilidades única para cada personagem. Infelizmente, o combate não flui tão bem durante as lutas: é tudo um pouco engessado demais. Contudo, as habilidades mostram um bom potencial para combos. A falta de fluência nos controles raramente vai proporcionar uma sequência de golpes além da que conseguimos apertando o botão de ataque 3 vezes antes de levar um golpe ou se defender. Comprar habilidades e melhorias é essencial para sobreviver, pois os pontos de salvamento são bem espalhados pelo mapa, e quando morremos perdemos metade das moedas que usamos para essa melhorias. Essas moedas, aliás, diferem do dinheiro para itens, que não é perdido com a morte. No início, em vez de um “ratoidvania” , Curse of the Sea Rat parece mais um “Rat Souls”, mas depois de comprarmos algumas habilidades, o game fica bem mais tranquilo.

    Apesar disso, ainda não é um trabalho fácil encontrar toda a gangue de Flora Burn  e derrotá-la. O caminho exige muito trabalho de plataforma, encontrar caminhos escondidos, obter outras habilidades etc. Mas devo dizer que o caminho em si realmente é o mais difícil, uma vez que os chefes dão menos trabalho do que os caminhos para chegar até eles, mesmo com controles não muito bons.

    A liberdade de exploração que é oferecida é um pouco contraditória. Apesar do acesso a muitos locais, ainda há travas devido às habilidades dos chefes. A sequência do roteiro é confusa: do nada temos uma cena em algum ponto do mapa com os vilões conversando, e isso não agrega nada ao enredo (mas sempre me arrancam risadas).

    Infelizmente, não posso estimar o tempo de finalização de Curse of the Sea Rat, pois por algum motivo de softlock não pude prosseguir em determinado momento do jogo. Posso dizer, porém, que foram mais de 10 horas para abrir todo o mapa, tendo alguns extras a realizar como side quests.

    Parte técnica

    Curse of the Sea Rat combina personagens desenhados e animados à mão com cenários 3D, uma combinação bem interessante e que dá uma boa impressão de profundidade e perspectiva. Mas isso nem sempre dá certo: algumas texturas que não são inteiramente 3D às vezes quebram e às vezes não se comportam como deveriam. Isso não ocorreu com frequência, mas quando acontecia era facilmente notável. Os chefes, por sua vez, fazem ótimo uso disso.

    No geral, Curse of the Sea Rat flui bem nos limites de hardware do Nintendo Switch. Temos transições de cenários e carregamentos de viagens rápidas em tempos baixos. Infelizmente, tive meu save corrompido enquanto estava terminando essa análise em busca de informações do jogo. Não sei o motivo disso, e assim como outro problema apontado (o softlock que mencionei acima), não tive nenhuma resposta dos devs até o momento.

    A trilha sonora não chama muita atenção, mas consegue dar um clima náutico aos cenários. Mesmo dentro de uma caverna, ainda lembramos de que estamos em um local costeiro. O que brilha mesmo é a dublagem de todos os diálogos (em inglês apenas), cada personagem tem uma voz, um sotaque e uma personalidade, o que ajuda muito a criar o clima da trama ou arrancar umas risadas.

    VereditoCurse of the Sea Rat é um metroidvania interessante, mas há falta de polimento nas mecânicas de combate. O roteiro é bom, mas tem uma execução fraca, assim como o level design.PrósElenco variadoDublagemBoa curva de aprendizado.ContrasCombate engessadoRoteiro confusoFalta de orientação ao jogadorGrande quantidade de erros notáveis, como vozes trocadas e diálogos faltando.Multipayer offline apenas5Divertido, porém falta polimento.{“@context”: “http://schema.org/”, “@type”: “Organization”, “name”: “Análise – Curse of the Sea Rats”,”image”: [ “https://universonintendo.com//srv/htdocs/wp-content/uploads/2023/04/SeaRats_capa.jpg” ],”review”: { “@type”: “Review”, “reviewRating”: { “@type”: “Rating”, “worstRating”: “0”, “ratingValue”: “5”, “bestRating”: “10” }, “author”: { “@type”: “Person”, “name”: “Igor Rangel” } }}

  • Análise: Pirates Outlaws (Switch): quando a qualidade vem pela quantidade

    Lançado originalmente para PC em 2019 e agora, em 2023, para consoles, Pirates Outlaws é uma mistura de roguelike com deckbuilding que conseguiu acertar no uso de uma máxima clássica, mas arriscada: quanto mais, melhor.

    A parte prática da gameplay pode até ser massivamente limitada e linear, mas tudo o que cerca a ação estratégica do título da Fabled Game faz com que o pacote completo seja absurdamente viciante e diversificado.

    Cartas e o alto mar: taí uma combinação curiosa

    Como o próprio tutorial evidencia, não é nem um pouco difícil entender como giram as engrenagens de Pirates Outlaws: essencialmente, assumimos o controle de um intrépido capitão em múltiplas expedições para derrotar foras-da-lei e coletar recompensas. Seguindo a característica definidora de um roguelike, essas jornadas são relativamente rápidas e apenas uma parte do progresso é permanente, o que serve de incentivo para mais runs.

    As aventuras seguem um trajeto vertical por um mapa recheado de lugares para atracar, em um total de três mapas por tentativa, com um chefão ao final de cada uma. Nossa embarcação é movida a Pontos de Ação (Action Points), que precisamos gastar para seguir em direção ao próximo destino. Caso o “combustível” acabe, o custo de deslocamento será em HP até que você consiga recuperar alguma quantidade de AP.
    É claro que a alma da gameplay são os combates, que enfrentamos munidos de um baralho em constante evolução graças a uma impressionante coleção de 702 cartas, divididas em quatro categorias: corpo-a-corpo (Melee), ataque a distância (Ranged); habilidade (Skill); e maldição (Curse). Há ainda as relíquias, objetos equipáveis que não fazem parte do baralho e possuem efeitos variados, que podem ajudar ou atrapalhar dependendo das condições do seu personagem.

    Parece bem direto ao ponto, mas vamos com calma, porque existem alguns fatores que influenciam no planejamento estratégico, como a mecânica de munição, que serve para pagar o custo de uso das cartas de ataque remoto e de habilidade; e a rotatividade das cartas na mão (de um máximo de 5) e do próprio baralho, que é embaralhado quando não há mais nada na pilha de compra.
    As duas primeiras categorias de carta entram em sintonia com uma característica das batalhas, que alinha até três inimigos em uma fila, na qual apenas o mais próximo do seu personagem pode ser alvo de golpes corpo-a-corpo, enquanto todos eles podem ser afetados por cartas Ranged; já as habilidades são benéficas a você, e as maldições sempre resultam em problema, seja te prejudicando diretamente ou beneficiando os adversários.
    Os tipos de território que compõem as trilhas dos mapas também desempenham um papel crucial na hora de decidirmos por onde navegar. Além das batalhas, podemos nos deparar com espaços de Evento, que nos incumbem de fazer algumas escolhas ou simplesmente jogam um efeito obrigatório; as Tabernas, onde podemos restaurar Pontos de Ação e HP, vender relíquias e remover cartas do baralho; e os Mercados, que disponibilizam a compra de novas cartas, relíquias e aprimoramentos para as cartas que você já tem.

    Quem é esse bucaneiro?

    Pirates Outlaws conta com 16 personagens (mais sobre eles adiante), cada um com mecânicas, pontos de vida, quantidade de munição e um baralho inicial diferente. Eles contribuem quase tanto para o fator replay quanto a gigantesca coleção de cartas, porque é divertidíssimo experimentar cada pirata e até mesmo escolher alguns para utilizar com mais frequência, dependendo do seu gosto pessoal.
    A maioria desses aventureiros é desbloqueada por meio do acúmulo de Reputação, que você ganha ao progredir nas runs, mas alguns poucos só ficam disponíveis após o cumprimento de objetivos específicos. Quando a Reputação chega a 9999 (nem se preocupe, você nem vai ver o tempo passar), um Modo Difícil é desbloqueado, com inimigos mais fortes e ambientes mais severos.

    Se liberar e desfrutar das particularidades de todos os 16 personagens não for o suficiente, você tem a opção de ir atrás de obter os trajes (skins) de cada um, que possuem apenas valor estético, mas não deixam de ser um pequeno incentivo pra jogar um pouquinho mais.
    Um conteúdo que sinceramente não me entusiasmou são os outros dois modos de jogo além da Navegação, a Arena e a Briga na Taberna. Enquanto na Arena você escolhe uma única recompensa a cada vitória e enfrenta um chefão a cada 10 rodadas, a Briga na Taberna consiste em selecionar pacotes pré-montados de cartas para incrementar o baralho à medida que avançamos.

    Uma hora o enjoo marítimo bate

    Exatamente como eu falei no começo da análise, todo esse conteúdo consegue mascarar bem o fato de que Pirates Outlaws não tem absolutamente nada a oferecer além de batalhar, navegar e montar baralhos.

    Não é como se isso não fosse o suficiente para manter o interesse por muitas e muitas horas, mas ainda assim houve momentos em que eu cansei de seguir o mesmo roteirinho básico. Bom, é nessas horas que a gente troca de jogo ou vai fazer outra coisa da vida, né? O joguinho vai continuar lá quando você quiser voltar a ele (o que, por experiência própria, provavelmente vai acontecer algumas vezes).
    O estilo artístico em papercraft merece elogios, principalmente no design dos cenários e das cartas; já a trilha sonora é completamente dispensável, fique à vontade para escolher alguma coisa mais empolgante, quem sabe até um Piratas do Caribe.
    Por fim, deixo aqui uma crítica que dá um cansaço só de pensar em escrever sobre: a ausência do português entre os idiomas do jogo — que, por sinal, só tem alemão e chinês entre as opções disponíveis além do inglês. Achei aleatório, ainda mais considerando que a publisher do jogo é espanhola.

    Yo ho, e uma garrafa de coração das cartas

    Não deixe a criatividade quase inexistente do modo de jogo principal te enganar: Pirates Outlaws vai te prender por um bom tempo em meio a possibilidades virtualmente infinitas de combinações de cartas e habilidades de personagens. Se roguelikes e deckbuilders estiverem entre seus gêneros favoritos, já vai se preparando para engatar uma run atrás da outra.

    Prós:

    • Uma impressionante coleção de mais de 700 cartas, garantindo um fator replay monumental;
    • Os 16 personagens disponíveis, com características bem distintas uns dos outros, casam perfeitamente com as possibilidades virtualmente infinitas de montagem de baralho;
    • Para quem gosta de colecionar, cada personagem tem múltiplos trajes para desbloquear;
    • Bela arte em papercraft, principalmente nos cenários e nas ilustrações das cartas.

    Contras:

    • A gameplay prática não tem absolutamente nada para se fazer além das batalhas;
    • Os modos de jogo além da Navegação não são tão empolgantes;
    • Trilha sonora completamente dispensável;
    • Ausência de português entre os idiomas disponíveis.

    Pirates Outlaws – Switch/PC/PS4/XBO – Nota: 7.5Versão utilizada para análise: SwitchRevisão: Cristiane AmaranteAnálise produzida com cópia digital cedida pela BlitWorks Games

  • Review | Process of Elimination

    Desenvolvedora: Nippon Ichi Software
    Publicadora: NIS America
    Data de lançamento: 11 de Abril, 2023
    Preço: R$ 209,99
    Formato: Digital/Físico

    Análise feita no Nintendo Switch com cópia gentilmente cedida pela NIS America.

    Revisão: Davi Sousa

    Desenvolvido e publicado pela Nippon Ichi Software, Process of Elimination (ou Tantei Bokumetsu) é um jogo com uma narrativa de visual novel e gameplay em tática de investigação criminal, com elementos de RPG e jogo de tabuleiro. A história gira em torno de detetives em um jogo de sobrevivência em que é preciso a cada capítulo encontrar a tempo os indícios de algum assassinato e inferir como o crime se deu.

    Um jogo de sobrevivência com um exótico time de detetives

    Se você já jogou Danganronpa ou algum outro adventure influenciado por ele, não irá estranhar o estilo narrativo de Process of Elimination, mas caso esteja esperando uma trama de investigação mais pé-no-chão, você não encontrará o que procura neste game. Claramente é um título que não poupa clichês e exageros em seu texto, desde a escrita dos personagens até o argumento narrativo, e há pouco de seu material que resulta em algo convincente ou intrigante, mesmo quando a história tenta se mostrar dramática.

    O jogador segue Wato Hojo, um jovem assistente de detetive da Gunjoji Detective Agency que se junta à prestigiada Detective Alliance, composta por 100 detetives que buscam parar uma entidade chamada The Quartering Duke. No passado, o rapaz foi uma de 16 crianças que foram levadas a uma prisão subterrânea e usadas em um jogo macabro e mortal com audiência ao vivo. Agora ele procura evitar que outras tragédias como essa se repitam.

    Ao se ver perdido em uma ilha, o protagonista torna-se o detetive de número #100 da Aliança e logo recebe um apelido próprio, uma vez que os membros do grupo evitam revelar seus nomes reais. Cada detetive é conhecido por alguma característica saliente de sua personalidade ou aparência. Exemplos são os personagens Workaholic e Armor; o primeiro é extremamente diligente com seu trabalho e o segundo literalmente utiliza uma robusta armadura dos pés à cabeça. Enquanto alguém meramente medíocre, Wato Hojo é batizado de Incompetent.

    Nessa ilha, os detetives descobrem que um de seus membros foi assassinado e desconfiam que podem estar sendo vítimas de The Quartering Duke, um assassino em série que já eliminou centenas de pessoas. Eles não demoram também a suspeitar que o assassino está entre eles; ou seja, trata-se de alguém infiltrado dentro da Detective Alliance. Inicialmente, isso gera suspeitas entre o grupo, mas outros assassinatos ocorrem e logo fica claro que é melhor todos trabalharem juntos até que alguém consiga descobrir o responsável.

    Como fãs de anime facilmente perceberão, a premissa da trama não é nada original, e devo dizer que também não é muito bem conduzida. Para começar, o texto é excessivamente repetitivo e extenso com inferências óbvias, pensamentos desnecessários e diálogos clichês que tentam em vão estender o clima dramático de uma cena ou fazer piadas gastas e baratas com base nas personalidades e aparências dos personagens.

    De todos os aspectos textuais, o que há de mais interessante é a construção de certos mistérios. Algumas vezes, há projetos até interessantes em torno de como certos assassinatos ocorreram; por outro lado, a forma como os mistérios são resolvidos frequentemente é apelativa e superficial. O desfecho da história também não ajuda, pois tanto o vilão como cada um dos personagens é extremamente previsível e caricato, e raramente o roteiro consegue aproveitar isso para fazer qualquer reflexão mais elaborada que justifique tamanha simplificação de papéis.

    Uma gameplay com ideias interessantes, mas bem pouco desenvolvidas

    O ponto forte de Process of Elimination parece estar em sua proposta única de gameplay: uma inusitada combinação de visual novel de investigação com tática em tabuleiro. Entretanto, a dinâmica de jogo infelizmente não só é subdesenvolvida como também é pouco presente no meio de seções enormes de leitura em estilo VN. Penso que faltou uma melhor articulação entre esses dois estilos de jogabilidade, embora eu reconheça que não é uma tarefa fácil alternar entre investigação adventure e jogo tático.

    De modo geral, os capítulos se desenrolam em três partes. Primeiramente, há uma longa exposição de visual novel para dar ao jogador o contexto de um assassinato; em seguida, o jogador é colocado em um tabuleiro que lembra um jogo de detetive com cômodos nos quais os personagens se tornam peças que podem andar um número determinado de células ou casas, a depender de seus atributos. Cada peça possui atributos que determinam também aspectos da jogabilidade, como o alcance da observação para procurar de indícios a serem examinados e a eficácia de análise e inferência a partir desses indícios.

    O sistema do jogo é um tanto diferente para compreender de início, mas logo se torna intuitivo e prático — só é uma pena que não haja tantas partidas para seus mecanismos serem devidamente desenvolvidos. Tudo funciona por turnos, e há uma quantidade limitada deles para resolver o puzzle do assassinato; caso o jogador não consiga durante esse prazo, ocorre um massacre e o resultaldo é um game over.

    De modo geral, não há adversário: o jogo é uma batalha contra o tempo. Em cada turno, é possível mover as unidades que estão verdes; as unidades vermelhas irão ser movimentadas automaticamente, são personagens que estão agindo por conta própria. Essas cores podem mudar no decorrer da partida, conforme sua estratégia. Ao selecionar um personagem jogável, é possível utilizá-lo para se movimentar, observar indícios no cenário, analisar evidências (após tê-las colhido por observação) ou executar “ataques” (inferências) contra pontos específicos do tabuleiro.

    Os pontos que precisam ser atingidos por seus personagens são desbloqueados à medida que você consegue provas suficientes para identificá-los. Cada um desses pontos possui uma quantidade de “vida”, por assim dizer, e cada ataque/inferência tira deles um pouco dessa resistência com o passar dos turnos. O dano pode ser amplificado ao colocarmos uma unidade como assistência ao lado daquela que está atacando/inferindo o alvo, causando um efeito de Boost.

    Com o passar dos capítulos, o level design vai se tornando mais complexo, podendo haver armadilhas no cenário, por exemplo, mas o desafio tático é quase nulo, sendo extremamente fácil saber o que fazer. Contudo, o jogador precisará cada vez mais otimizar sua estratégia dentro do tempo limite. Antes de tudo, é preciso ficar atento às habilidades de cada personagem: alguns possuem alto atributo de análise, mas são pouco úteis para observação, enquanto que outros são especialmente úteis para inferência.

    Passado o período de gameplay tática de tabuleiro, a terceira etapa de cada capítulo tipicamente envolve escolhas de diálogo através das quais o jogador possui algumas oportunidades para tentar desvendar o mistério do assassinato. Semelhante ao jogo de detetive, é preciso saber onde ocorreu o assassinato, quem o praticou e como ele ocorreu. Essa seção é marcada por uma mescla de raciocínios óbvios, hipóteses inusitadas e um desfecho que tensiona a relação entre os personagens e leva a trama ao capítulo seguinte.

    Um audiovisual pouco inspirado e interessante como visual novel, mas com um design bacana para as seções de tabuleiro

    À primeira vista, Process of Elimination não impressiona em visuais — até pelo contrário: em muitos aspectos, ele parece uma visual novel genérica de investigação com inspirações em outras, como Danganronpa, a começar pelo fato do grupo de personagens ser representado de forma extremamente caricata, com nítidos contrastes complementares de personalidade e aparência. Apesar dessa escolha trazer alguns problemas, suas atuações por voz são consistentes e bem expressivas.

    Para além do frequente excesso de conveniência da premissa do roteiro e do desenrolar da trama, o design exagerado de cada personagem não contribui para dar impacto à trama. Ademais, ele torna seus papéis muito previsíveis e simplórios. Felizmente, em alguns momentos esse recurso é usado a favor de “enganar” o jogador ou mesmo servir como elemento de dedução, mas desfavorece o design narrativo nos demais aspectos.

    Temos uma cenografia sempre estática, com alguns efeitos. Eu gostei do design elegante dos tabuleiros para as batalhas: ele é bem funcional e prático, e comunica bem as inspirações de gameplay. Contudo, trata-se em outros aspectos essencialmente de uma VN simples com alguns cenários que alternam contextos exteriores da ilha com locais interiores onde se passam os mistérios de assassinato. Frequentemente há ocasiões violentas — afinal, os assassinatos são praticados com requintes de crueldade —; porém, os recortes de imagem censuram partes mutiladas ou outros elementos fortes.

    Do ponto de vista musical, a trilha sonora às vezes é um pouco repetitiva, por vezes com soluções genéricas, mas o estilo é razoável e condizente com a extravagância de seus visuais. As peças costumam ser bastante melódicas, com ênfase em teclado e sons sintéticos estridentes e percussivos. A harmonia possui um sutil clima de mistério misturado com um ritmo dançante intenso, quase sempre rápido ou pelo menos com andamento moderado.

    Senti falta de faixas que explorassem mais o lado sombrio dos assassinatos e o lado mais reflexivo dos mistérios. Por outro lado, acho que algumas delas fazem um bom trabalho de antecipação melódica para as seções em tabuleiro. Como nesses momentos Wato se vê em uma corrida contra o tempo, o ritmo acelerado e melodicamente destacado torna o jogador desperto e ansioso mesmo que seu tempo passe em turnos. Confira um pouco do estilo musical no trecho de vídeo abaixo:

    Uma experiência genérica de investigação e sobrevivência, mas um experimento inicial interessante de tática em tabuleiro

    A despeito da mediocridade de seu design narrativo e audiovisual, Process of Elimination possui ideias interessantes de gameplay que merecem ser polidas e mais desenvolvidas em algum título posterior. Fãs de anime com temática de sobrevivência ou de adventure de investigação à moda de Dangaronpa podem gostar desse jogo. Também recomendo-o, mas com várias ressalvas a quem esteja atrás de uma gameplay experimental com mecânicas táticas.

    Prós:

    • A proposta do game oferece uma experiência variada entre leitura, raciocínio e tática;
    • Há ideias interessantes de mistura de tática e investigação com elementos de RPG e tabuleiro em dinâmica por turnos;
    • A trilha sonora e o voice acting são razoáveis para a proposta, e há boas ilustrações;
    • O design de tabuleiro para as táticas é elegante e prático.

    Contras:

    • Texto muito inchado, repetitivo e simplório;
    • Personagens excessivamente caricatos, exagerados e previsíveis em um roteiro que raramente tira um bom proveito disso para algo interessante;
    • A trama é pouco original, pouco crível e pouco instigante tanto em sua temática de sobrevivência quanto em sua premissa de mistério;
    • A resolução de vários mistérios é frequentemente apelativa, muito conveniente e superficial;
    • Infelizmente sua gameplay que mistura tática com investigação é pouco desafiadora, pouco desenvolvida e também pouco presente na experiência de jogo;
    • Cenografia um tanto genérica.

    Nota Final

    6,5

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  • Análise | No More Heroes 3 | Mirou na insanidade e acertou na genialidade

    Em um futuro distópico onde a humanidade precisa se defender de ataques diários de um exército robótico, acompanhamos a história de Marfusha, uma jovem que é convocada para fazer parte do exército de resistência. A soldada é colocada no posto de protetora dos portões externos, tendo de eliminar qualquer ameaça que se aproxime da cidade, seguindo os conselhos da inspetora.

    Frenesi e Impostos

    O jogo funciona de uma maneira bem cíclica e rápida, cada dia que passa enfrentamos uma horda de inimigos que passam por nós em busca de derrubar o portão que protegemos, precisando-se então acabar com todos o mais rápido possível. As sessões são bem curtas também, não costuma demorar 1 minuto para encerrarmos a ação tendo destruído todos os robôs, diminuindo a frustração caso falhemos e tenhamos que tentar o dia novamente.

    E ao fim de cada dia somos pagos por nossos esforços, e com o dinheiro que recebemos podemos comprar melhorias de stats, novas armas, itens, ou até mesmo contratar uma companheira para nossa luta. Há uma boa variedade de itens, e cada arma pesa bastante na gameplay, tendo que identificar se preferimos uma que possui mais poder de fogo, maior quantidade de munição, e que tenha uma boa sinergia com a companheira que recrutamos para nos ajudar nos turnos.

    Só podemos realizar uma compra antes de iniciar o combate do dia, precisando definir bem nossas prioridades, ou até passar dias sem comprar algo para economizar para algo que julgamos mais importante, já que o dinheiro, especialmente no início da campanha, é escasso.

    Porém, apesar de não termos um mal salário, assim como a dura vida real, temos que retribuir com uma boa dose de impostos em cada pagamento, cortando em grande quantidade nosso recebimento líquido para um bruto bem reduzido e que precisamos administrar bem. Conforme progredimos nosso salário vai aumentando, contudo, comicamente mais impostos absurdos vão aparecendo para nunca ficarmos muito acima do mesmo nível de lucro diário estabelecido.

    Entre algumas missões temos dias de descanso, onde em nosso dormitório podemos escolher entre comer, dormir ou tomar um banho, cada atividade melhorando nossos stats de alguma maneira diferente para os futuros combates. São boas doses de descanso do ciclo repetitivo, além de apresentarem alguma situação cômica com a inspetora ou a companheira que estiver recrutando no momento, porém nunca chegam a nada tão profundo, como a trama num geral, que apesar de até tentar trazer certas reviravoltas, só não muito bem apresentadas e não tiraram muita reação de mim.

    Não sai muito da mesmice

    O gameplay de Marfusha é bem frenético e viciante de início, ficamos animados em planejar nossas compras, achando builds que encaixam bem com nosso estilo de jogo, entretanto, ele cai na repetição muito rápido, mesmo quando somos promovidos a novos cargos e até temos mudanças de objetivo quanto a nossa defesa, nunca saímos do mesmo ciclo de gameplay, de 30 a 60 segundos atirando nos mesmos inimigos por cerca de 1 hora até o fim da campanha, que apesar de curta, achei aliviante quando encerrou.

    O jogo até tenta apresentar um certo valor de replay com finais alternativos baseados na recruta que temos no momento final, porém não são recompensadores o suficiente para passar pelo mesmo ciclo repetitivo mais uma vez. Já os modos extras são mais desafiadores e divertidos para explorar mais da gameplay do jogo ao invés de rejogar a campanha, já que focamos na parte mais divertida, e podemos até mesmo utilizar as personagens que anteriormente serviam apenas de apoio.

    Em suma, apesar de um visual bem chamativo com uma pixelart bem feita, e bons designs para as personagens que encontramos, Marfusha não surpreende em sua história, e traz uma experiência que mesmo que curta, se torna enjoativa rapidamente. Pode ser divertido caso queira uma experiência rápida e que não precise pensar muito para uma tarde, mas com certeza existem opções melhores pelo mercado.

    Prós:

    • Pixel art bem feita;
    • Bastante customização;
    • Modo desafio.

    Contras:

    • Fica repetitivo rápido;
    • Personagens não encantam tanto.

    Nota Final

    6

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  • Análise: Process of Elimination (Switch) combina visual novel e uma curiosa visão tática da investigação criminal

    Originalmente lançado no Japão em 2021 como Tantei Bokumetsu, Process of Elimination tem uma ideia curiosa. Embora boa parte da jornada siga o modelo de visual novel, a obra transporta os seus elementos de investigação criminal para uma perspectiva de estratégia tática. O resultado poderia ter sido interessante, mas foi relativamente pouco explorado pela obra.

    Um grupo de detetives habilidosos

    Em Process of Elimination, seguimos a perspectiva de Wato Hojo, um jovem rapaz que decidiu se tornar um detetive para impedir que mais tragédias como a que vivenciou no passado acontecessem. Ainda pequeno, ele e outras crianças haviam sido sequestrados e colocados em algum tipo de labirinto com máquinas perigosas. Em seus sonhos, Wato ainda vê sua amiga Saika sendo brutalmente assassinada por essas criaturas e sonha em um dia descobrir a verdade por trás disso.

    Um dia, o protagonista se vê em uma ilha junto a membros da Detective Alliance, um grupo de investigadores muito habilidosos que ele admira bastante. Porém, tornar-se o mais novo integrante dessa organização não será uma tarefa fácil e, antes mesmo que ele consiga se apresentar aos outros, ocorre um assassinato misterioso.

    Já nessas investigações iniciais, o grupo começa a se questionar se o pior assassino em série da história da humanidade, o Quartering Duke, pode estar na ilha e talvez ser um deles. Esse indivíduo foi responsável pelas mortes de uma centena de pessoas, todas seguindo um modus operandi de dois assassinatos simultâneos.

    Assim como os Ultimates de Danganronpa, cada um dos detetives possui algum tipo de habilidade especial que fez com que ele se destacasse no meio e recebesse um apelido relacionado a esse talento. Temos uma garota que lê muitos livros e tem uma excelente memória visual (Bookworm Detective), um gênio da informática (Techie), um investigador especializado em casos que parecem paranormais (Mystic), uma garota com ótimas habilidades sociais (Downton), etc.

    Inicialmente, cada detetive tem uma tendência a trabalhar sozinho de forma ineficiente. Conforme mais assassinatos acontecem e os personagens investigam as suas causas, o grupo se torna mais unido sob os comandos de Wato, que fica conhecido como “Incompetent Detective”.

    De forma geral, a narrativa tem casos interessantes, mas abusa de elementos convenientes em algumas ocasiões. Além disso, os diálogos tendem a ser muito repetitivos, mencionando o mesmo assunto várias vezes e tentando tratar detalhes já sabidos como reviravoltas. Ao mesmo tempo, há falhas de lógica e os próprios personagens acabam se contradizendo em um curto espaço de tempo.

    Coordenando a investigação

    Embora o aspecto visual novel seja a maior parte da obra, o diferencial de Process of Elimination em relação a outros títulos de investigação criminal é o momento da coleta de evidências. Em vez de vasculhar os ambientes por conta própria para obter as pistas necessárias para julgar o que aconteceu, cabe ao jogador enviar comandos para vários detetives, fazendo com que eles cooperem ou se movimentem com mais eficiência pela área investigada.

    Nem todos os personagens aceitam comandos, mas às vezes é possível desbloquear mais aliados conforme a investigação avança. Como em um jogo tático, a ideia de Process of Elimination é movimentar essas unidades até os pontos relevantes da investigação e usar as suas habilidades. Há duas formas de movimentação: a básica, que permite agir logo depois, e a viagem para literalmente qualquer ponto do mapa ao custo de não poder agir novamente naquele turno.

    Todos os personagens podem inspecionar uma área em busca de novas pistas (áreas roxas com o desenho de uma lupa), inferir detalhes sobre o que ocorreu vasculhando pontos brancos do mapa, analisar uma pista já obtida, ajudar outra pessoa em seu processo de inferência e se movimentar. Porém, a capacidade de cada um é bem diferente, sendo alguns personagens mais indicados para algumas funções. Por exemplo, Techie é um dos melhores em análise, sendo capaz de avaliar qualquer pista, mas a sua habilidade de inspeção é baixa, só permitindo encontrar pistas que estejam a um passo dele.

    Com isso, o jogador precisa saber coordenar as ações dos detetives para poder vasculhar todo o mapa. Isso pode ser especialmente importante para quem quiser pegar todas as palavras-chave, itens opcionais que oferecem mais detalhes sobre eventos passados, casos que os detetives investigaram antes e termos que a obra não se aprofunda na trama principal. Há também alguns pontos no mapa que apenas Wato consegue investigar e desbloqueiam cenas adicionais em que os personagens revelam seus nomes verdadeiros.

    Outro elemento importante é a presença de armadilhas, que são áreas que causam game over caso um dos personagens esteja em uma delas antes do seu turno começar. A primeira vez que isso aparece no jogo é por meio da análise de uma das pistas, mas isso nunca mais acontece posteriormente.

    Uma vez coletadas todas as evidências essenciais, é possível terminar a investigação imediatamente ou explorar um pouco mais. Depois, há um trecho no qual é necessário escolher as respostas certas para completar o raciocínio de Wato e encerrar o caso, e tomar decisões erradas leva a penalidades que podem implicar em game over e em uma avaliação pior durante a resolução do capítulo.

    De forma geral, a investigação tática é relativamente rara, ocorrendo apenas uma vez por capítulo inicialmente. Depois, ela acaba se tornando mais frequente, mas as áreas de exploração são muito simples e ficam até mais fáceis de lidar do que nos primeiros casos, não aproveitando tão bem o aprendizado do jogador. A sensação geral é de que caberia pensar mais a fundo o design das áreas e a progressão das áreas para aproveitar o aprendizado do jogador ao longo do tempo e, sem isso, o que temos é uma proposta de mecânicas muito interessantes, mas que merecia mais profundidade e desenvolvimento.

    Os outros detalhes

    Além das questões de narrativa e gameplay mencionadas acima, chama a atenção o design dos personagens de Mio Katsumata. Além da estética simples, mas bem detalhada e com linhas fortes, os seus traços de personalidade são bem marcados nas suas aparências. A atuação de voz (exclusivamente japonesa) dos personagens também é bem-feita, oferecendo performances com bons níveis de emoção, embora com alguns excessos teatrais devido a alguns traços forçados do roteiro.

    Também gostaria de destacar que a obra conta com opções de auto, skip e log, que são fundamentais para uma boa experiência em visual novels. O jogo até mesmo possui uma opção de “Skip to Choice”, que permite pular diretamente grandes pedaços de texto até chegar à próxima escolha que o jogador precisa fazer. Apesar disso, a impossibilidade de usar a tela de toque do Switch para avançar o texto é um grande inconveniente, pois é uma das formas mais agradáveis de navegar por visual novels no console.

    Uma investigação criminal atípica

    Process of Elimination é uma obra curiosa que explora um formato atípico para a investigação criminal. Para quem gosta muito do gênero e quer ver a mistura com elementos táticos, trata-se de um jogo interessante, mas a trama repetitiva e marcada por muitas conveniências enfraquece consideravelmente a experiência, assim como o fato de que o título poderia ter explorado melhor as possibilidades de suas mecânicas.

    Prós

    • Coordenar as ações dos detetives de forma tática é uma ideia muito boa e oferece um estilo único e interessante de gameplay;
    • Design de personagens rico em detalhes e distinto;
    • Possibilidade de pular diretamente para a próxima escolha ajuda o jogador caso queira rejogar;
    • Boa atuação de voz japonesa dos personagens, embora com alguns excessos;
    • Sistema de palavras-chave que adiciona objetivos opcionais para vasculhar as áreas.

    Contras

    • Narrativa repetitiva e cheia de elementos convenientes e falhas de lógica;
    • A investigação tática é relativamente rara, subdesenvolvida e não oferece um desafio com boa progressão de dificuldade;
    • Incapacidade de usar a tela de toque.

    Process of Elimination — Switch/PS4 — Nota: 7.5
    Versão utilizada para análise: Switch

    Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
    Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America

  • Análise: Lunark (Switch) resgata com esmero um gênero pouco lembrado

    Publicado pela WayForward e desenvolvido pela Canari Games, Lunark é um jogo que se inspira em clássicos, principalmente Prince of Persia e Flashback, para trazer ao Switch um gênero pouco explorado atualmente: o plataforma cinematográfica 2D. Antes de iniciar a análise, devo advertir que, embora se trate de uma obra com muitos pontos positivos, a necessidade de executar os movimentos com precisão pode acabar afastando algumas pessoas que preferem jogos mais rápidos.

    Novo planeta, velhos problemas

    Em um futuro no qual a Terra se tornou inabitável, a humanidade conseguiu sobreviver se mudando para um planeta chamado Albaryne; no entanto, a desigualdade social parece acompanhar o ser humano em qualquer lugar em que ele esteja. Neste novo lar, as pessoas são governadas por uma inteligência artificial, com o auxílio de muitos robôs, que mantêm os poucos ricos e muitos pobres em suas posições.
    Nesse contexto, o jogador assume o papel de Leo, um jovem com habilidades e características físicas únicas que, após ser acusado de participar de uma rebelião, deve fugir enquanto descobre os segredos por trás de sua origem e do passado do planeta. A história de Lunark vai criando muitos mistérios em seus momentos iniciais, sendo revelada de forma mais direta a partir de um certo momento do jogo.

    Para enriquecer o roteiro, os diversos NPCs espalhados pelo mundo possuem certos conhecimentos que fazem com que os diálogos sejam interessantes, despertando ainda mais a curiosidade sobre os segredos que cercam o novo lar da raça humana. Infelizmente, o título não conta com legendas em português.

    Uma jogabilidade precisaAlbaryne é composto por muitas regiões diferentes, como cidades, florestas e cavernas. Em cada ambiente, há diversos quebra-cabeças para serem resolvidos, geralmente envolvendo o deslocamento de plataformas e a abertura de passagens. Além dos puzzles, também nos deparamos com variados inimigos, com cada um deles possuindo movimentos e ataques diferentes.
    No controle de Leo, o jogador pode correr, pular, rolar, se pendurar e atirar. Apesar de serem ações relativamente simples, leva um tempo para se acostumar com elas, principalmente para as pessoas que não tiveram contato com títulos de plataforma cinematográfica. Isso ocorre porque as movimentações do protagonista simulam uma pessoa real, tornando impossível a execução de ações que desafiam a física.

    Devo admitir que o meu tempo com jogos do gênero foi mínimo, o que resultou em uma certa demora para pegar o jeito das mecânicas de Lunark. Tudo parecia impreciso no início, com um certo atraso entre a execução de um comando e outro; no entanto, após aprender que cada movimento possui um tempo exato de resposta, a aventura se tornou bastante prazerosa.
    Diferentemente de jogos de plataforma mais comuns, sair correndo e pulando nunca será uma opção viável; pelo contrário, é necessário analisar o cenário e pensar em cada movimento para não acabar morrendo. Nesse sentido, o level design acompanha a alta exigência que Lunark tem com o jogador, pois cada obstáculo e inimigo é posicionado de uma forma que faz com que seja difícil concluir o local, mas totalmente possível se houver atenção.
    A arma utilizada por Leo também exige um pouco de estratégia para ser usada, pois ela necessita de um tempo de carregamento após alguns tiros. Para facilitar um pouco, existem algumas estruturas escondidas pelos cenários que aprimoram a arma, aumentando a quantidade de disparos.

    Outra forma de evoluir o personagem é encontrando um item específico que um NPC chamado Hugg deseja. Ao efetuar a entrega, somos recompensados com mais corações de vida. Por conta desses aprimoramentos, a exploração se torna benéfica ao jogador, tornando a jornada um pouco menos difícil.

    Poucos problemas em um jogo feito com carinhoEmbora sejam simples, os gráficos em pixel art de Lunark são bem detalhados, com o visual dos chefes merecendo grande destaque. Além disso, há algumas cenas animadas que foram criadas com a técnica de rotoscopia, ou seja, os momentos foram filmados por pessoas reais e redesenhados quadro a quadro, criando a animação a partir do vídeo.
    A trilha sonora segue a variedade de cenários e também apresenta uma boa quantidade de faixas diferentes. O que pode acabar incomodando algumas pessoas é a repetição da música que toca durante as cenas animadas, geralmente quando coletamos um item chave ou interagimos com algum dispositivo.

    Em cada detalhe, podemos ver o cuidado e o carinho que os desenvolvedores tiveram com a criação de Lunark. Cada pedacinho do jogo parece ter sido planejado meticulosamente, pois tudo o que há no cenário não é por acaso e possui um motivo coerente para estar ali.
    A despeito das diversas qualidades, o que acabou me incomodando bastante foi a incoerência dos pontos de respawn. Em alguns momentos, voltamos para um local próximo ao que morremos, mas em outros retornamos várias áreas atrás. Por esse motivo, algumas regiões mais difíceis se tornaram cansativas, pois sempre que eu falhava, precisava atravessar a zona inteira novamente.

    Uma ótima forma de revisitar ou conhecer o gêneroCom Lunark, a Canari Games não só homenageia os títulos que a inspiraram, mas cria uma ótima adição com identidade própria ao gênero de plataforma cinematográfica. O jogo pode não agradar pessoas que prefiram uma abordagem mais veloz, mas aqueles que se permitirem conhecer a obra serão certamente recompensados com uma experiência ímpar que exigirá raciocínio e habilidade com o controle.

    Prós:

    • História simples, mas interessante e cheia de mistérios;
    • NPCs com diálogos que contribuem com a trama;
    • Movimentos com tempo de resposta exato que requerem precisão do jogador;
    • Gráficos em pixel art bem detalhados;
    • Excelente adição a um gênero pouco explorado atualmente.

    Contras:

    • Ausência de legendas em português;
    • A necessidade de realizar os comandos em tempo exato pode afastar pessoas que preferem jogos mais rápidos;
    • Os pontos de respawn são inconstantes, com alguns momentos obrigando o jogador a repetir áreas inteiras.

    Lunark — PC/PS4/PS5/XBO/XSX/Switch — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: SwitchRevisão: Cristiane AmaranteAnálise produzida com cópia digital cedida pela WayForward